Sobrevivi, Mas Não Me Curei: O Corpo que Ainda Espera Alívio

06/08/2025
Nem tudo que parece leve deixa de ser trauma: quando o corpo carrega o que a mente esqueceu
Introdução – Sobrevivi
Muita gente acha que trauma é só aquilo que quase nos destruiu. Um acidente grave. Uma tragédia. Um abuso. Algo que nos impede de continuar.
Mas a realidade clínica — e pessoal — revela outra coisa:
Trauma nem sempre é o que aconteceu. Trauma é o que ficou, preso no corpo, sem chance de se integrar.
Enquanto a mente tenta seguir em frente, o corpo permanece em estado de alerta, tensão ou congelamento.
Este artigo é um convite para rever o que você entende como trauma.
E talvez… entender sensações e sintomas que te acompanham há anos — mas nunca encontraram explicação.
Quando o trauma não é reconhecido como trauma
“Eu bati o carro e fiquei com medo de dirigir.”
“Voltei a dirigir normalmente, então não fui traumatizado.”
Essas frases são comuns.
E revelam uma concepção limitada: como se trauma fosse apenas o que nos paralisa visivelmente.
Mas e se a experiência for intensa o suficiente para ativar o sistema nervoso, mesmo que a pessoa continue funcionando depois?
Nesse caso, a tensão não desaparece. Ela apenas fica armazenada. Como uma carga incompleta. Um ciclo que não se fechou.
A neurobiologia do trauma já mostrou que, quando o sistema nervoso é ativado além da sua capacidade de processamento — e não encontra espaço para se regular — ele armazena a carga fisiológica da experiência (Levine, 1997; Ogden, 2006).
O tempo passa, mas o corpo ainda vive aquilo.
E é por isso que sintomas como insônia, ansiedade, crises emocionais ou doenças físicas podem surgir anos depois.
A metáfora da garrafinha: o trauma como acúmulo
Imagine que o seu sistema nervoso é como uma garrafinha com capacidade limitada.
Cada experiência intensa vivida — mesmo que não pareça “traumática” — vai enchendo um pouco mais esse recipiente interno.
Uma pequena batida de carro.
Um susto na infância.
Uma humilhação pública.
Uma briga com os pais.
Um parto medicalizado demais.
Uma cirurgia em tenra idade.
Uma perda precoce que não foi elaborada.
Tudo isso pode colocar ativação na garrafinha.
100 ml hoje, 300 ml amanhã…
Até que um dia ela transborda.
E o transbordamento vem em forma de crise de pânico, depressão, esgotamento emocional, sensação de sufocamento, ou uma angústia profunda que parece não ter causa.
Como explicou Daniel Siegel (1999), nosso sistema nervoso opera dentro de uma “janela de tolerância” — uma faixa de ativação em que conseguimos processar emoções, pensamentos e experiências de forma integrada. Quando vivemos situações intensas e recorrentes sem recursos de autorregulação, essa janela se estreita. E então, o corpo passa a oscilar entre estados de hiperativação (como ansiedade, irritabilidade e agitação) e hipoativação (como apatia, congelamento e dissociação), muitas vezes sem que a mente compreenda o que está acontecendo.
É por isso que, anos após um evento aparentemente superado, o corpo ainda pode carregar sintomas físicos, emocionais ou comportamentais — como se aquela experiência ainda estivesse viva, esperando por uma conclusão que nunca veio.
Quando parece que está tudo bem… mas o corpo não acha
Certa vez, durante um treinamento que conduzi com um grupo de pessoas, decidimos encerrar o dia fazendo uma fogueira.
Tínhamos lenha e um galão com um restinho de álcool. Acendemos a fogueira, mas o fogo não pegou bem. Ingênuo e inexperiente com fogo, joguei o álcool no centro das chamas.
Na primeira vez, o fogo aumentou. Na segunda, mais ainda.
Na terceira vez, uma labareda entrou no galão, que explodiu — lançando-se a mais de 15 metros de distância, enquanto uma onda de fogo se espalhava à frente.
É a velha história: “graças a Deus, ninguém se machucou”.
Mas algo em mim congelou. Meu olhar ficou distante.
Eu continuava dizendo que estava tudo bem. Mas não estava.
Mesmo tentando dar risada e seguir com o grupo, por dentro… algo ficou atordoado.
Naquela noite, dormi mal. E ao voltar para casa, os sintomas persistiram: insônia, tensão, uma sensação estranha no corpo.
Foi quando decidi buscar ajuda terapêutica.
Durante a sessão, meu corpo tremeu, vieram calafrios, arrepios, lágrimas e depois… um grande alívio.
Como afirma Bessel van der Kolk (2014), o trauma não é o evento em si, mas a resposta do corpo que permanece ativa, mesmo depois que o perigo já passou.
E apesar de nada grave ter acontecido, meu sistema nervoso ainda estava carregando a energia do susto.
E por conhecer os processos do trauma, pude descarregar essa carga antes que ela se tornasse mais um acúmulo.
Mais um peso na garrafinha.
O corpo sente antes da mente entender
Essas ativações, que parecem “pequenas”, são como minúsculas rachaduras que vão se espalhando.
E um dia, o sistema nervoso estoura por completo.
Durante a pandemia, passei por outra situação.
Três rapazes vieram cuidar do jardim da minha casa. O combinado era usar, no máximo, oito sacos de terra.
Fui realizar outras tarefas, e ao voltar, vi uma pilha enorme de sacos.
Me senti enganado, talvez até vítima de um golpe.
Mas ao invés de questionar, eu congelei.
Paguei o valor abusivo. Eu só queria que eles fossem embora.
Naquela noite, não consegui dormir.
Passei os dias seguintes me criticando por ter sido “tolo”, por não ter feito nada.
Mas, em vez de tentar racionalizar, resolvi acessar esse congelamento de forma somática.
Ao fazer um processo de autoacolhimento profundo (que não passa pela razão) emergiram memórias muito antigas, inclusive impressões intrauterinas de impotência e medo.
Segundo Peter Levine (2010), experiências que envolvem impotência absoluta — como as vividas no útero ou nos primeiros anos — tendem a se cristalizar no corpo como memórias implícitas, moldando padrões automáticos de reação.
Ao tocar essas camadas com presença e compaixão, pude encontrar não só alívio, mas uma compreensão mais amorosa das minhas reações.
E mais uma vez, evitar o acúmulo silencioso de estresse no meu sistema.
O caso do homem “sem traumas”
Recentemente, um homem se sentou na minha frente e disse:
“Eu vim porque sinto uma angústia que não sei explicar. Às vezes acordo no meio da madrugada chorando. Já fui ao hospital algumas vezes com a pressão altíssima e o coração acelerado, mas os médicos dizem que está tudo normal.”
Na conversa, me contou que cresceu em um lar com pais alcoólicos.
Depois, se lembrou de um acidente na infância onde teve dois terços do corpo queimado. Passou por seis cirurgias plásticas em seis anos.
Mas dizia com naturalidade:
“Eu não guardo mágoas. Sigo em frente.”
E ele realmente seguia.
Mas o corpo…
O corpo ainda chorava à noite.
Porque seguir em frente é importante. Mas não é o mesmo que integrar.
E o corpo sempre encontra uma forma de pedir ajuda quando a mente se recusa a olhar.
Como diz Gabor Maté (2022): “O trauma não é o que nos acontece, mas o que acontece dentro de nós como resultado do que nos aconteceu.”
Quando nada aconteceu… mas tudo ficou
Esses exemplos ilustram como traumas nem sempre estão nos eventos que “quase deram errado”.
Às vezes, estão nos detalhes. Na velocidade de uma cena. No susto. Na impotência.
E na forma como o corpo registra tudo isso, mesmo quando a mente quer esquecer.
E até agora, estávamos falando apenas das situações onde “graças a Deus, nada aconteceu”.
Mas e quando realmente aconteceu?
Quando há abuso, violência, abandono, perdas, separações precoces, negligência, cesáreas traumáticas, partos violentos, tentativas de aborto, gestações indesejadas?
Você consegue imaginar o impacto que essas experiências têm, não apenas enchendo a garrafinha, mas moldando quem a pessoa se torna?
Porque além dos sintomas, esses traumas definem também nossos padrões de enfrentamento, como no exemplo que compartilhei do congelamento com os jardineiros — um padrão que teve suas raízes na minha própria história intrauterina.
O trauma como tabu… e como potência
Infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade que entende pouco de trauma. Que despreza o que sente. Que não reconhece as raízes do sofrimento emocional.
Às vezes, ouço pessoas dizendo, quase com orgulho:
— “Eu não tenho traumas.”
Será isso um tipo de competição? Um orgulho de quem “não se deixou abater”?
Talvez, por trás disso, exista medo, vergonha, ou a ideia equivocada de que admitir traumas é sinal de fraqueza.
Mas a verdade é o oposto: reconhecer nossos traumas é um gesto de força, de coragem, de honestidade.
E mais: ao elaborarmos nossos traumas, também descobrimos talentos, dons e forças escondidas.
A isso damos o nome de crescimento pós-traumático — conceito estudado por Tedeschi e Calhoun (2004), que mostra como pessoas podem se tornar mais resilientes, sensíveis e alinhadas com seu propósito de vida após enfrentarem suas feridas com profundidade.
E você?
Se algo deste artigo atravessou você…
Se em algum momento da sua vida você sentiu uma dor sem conseguir pedir ajuda…
Se já acordou com o coração acelerado, chorando sem saber por quê…
Se vive com um peso emocional que não tem nome…
Quero te convidar a dar um passo profundo: não apenas para entender seus traumas, mas para se reconectar com quem você realmente é.
Porque muitas vezes, aquilo que chamamos de “eu” é apenas um amontoado de estratégias de sobrevivência, máscaras, adaptações…
E há uma parte em nós — íntegra, sensível, espontânea — que está pedindo para voltar.
Participe da Vivência Pré e Perinatal
Na Vivência Pré e Perinatal, acessamos essas camadas profundas da experiência humana (da gestação, do nascimento, da infância) e trabalhamos diretamente com o corpo e com o sistema nervoso para liberar essas memórias.
É uma experiência transformadora que não busca apenas “curar traumas”, mas restaurar a inteireza de quem você é.
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Bibliografia
Trauma e Sistema Nervoso
- Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-Regulation. W. W. Norton & Company.
→ Fundamenta o conceito de janela de tolerância fisiológica, segurança neuroceptiva e estados de congelamento como respostas do sistema nervoso.
- Levine, P. A. (1997). Waking the Tiger: Healing Trauma. North Atlantic Books.
→ Base da terapia somática. Fala do corpo como registro de memórias traumáticas e como o trauma não está no evento, mas na resposta que permanece no sistema nervoso.
- van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. Penguin Books.
→ Um dos livros mais citados sobre como o corpo guarda o trauma mesmo quando a mente esquece.
- Siegel, D. J. (1999). The Developing Mind: How Relationships and the Brain Interact to Shape Who We Are. Guilford Press.
→ Introduz o conceito da janela de tolerância e mostra como experiências precoces moldam o cérebro e o desenvolvimento emocional.
Excelente explicação. O bom que você deu exemplos de várias raizes traumáticas.