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O Nascimento por Cesárea: quando o primeiro corte atravessa o corpo, o vínculo e a história

O Nascimento por Cesárea: quando o primeiro corte atravessa o corpo, o vínculo e a história

18/02/2026

Existe um ponto que já passou da hora de ser encarado sem anestesia emocional: nascer por cesárea não é apenas técnica cirúrgica, é experiência psíquica. É rito interrompido. É corpo arrancado antes de se anunciar. É uma história que começa com corte e não com passagem, com retirada e não com chegada.

O Brasil, líder mundial no procedimento, vive uma contradição difícil de digerir: a cesárea salva vidas — mas o abuso dela fere biografias. O problema não é a faca, é a cultura que, para não sentir, corta.

E aquilo que é cortado não é apenas o útero. É também:

  • o tempo do bebê;
  • a preparação do corpo;
  • o arco hormonal completo;
  • o vínculo imediato.

A cesárea, como recurso emergencial, é bênção. Mas como padrão, se torna cicatriz coletiva — física, emocional, transgeracional.

cesarea

Quando o nascimento é interrompido, a história inteira aprende a começar sem concluir

No parto vaginal existe pacto, ritmo, aviso, negociação:

  • o útero empurra,
  • o bebê responde,
  • a mãe sente,
  • o corpo encontra passagem.

No nascimento cirúrgico, o pacto é rompido antes de ser iniciado. O corpo do bebê é retirado sem convocação, sem contração, sem preparação, sem participar do próprio nascer.

E o sistema nervoso registra isso como verdade existencial:

  • “eu não começo”
  • “eu sou conduzido”
  • “eu não tenho força própria”
  • “a vida me acontece, eu não aconteço nela”

Pesquisas mostram que crianças nascidas por cesárea repetem quatro vezes mais “eu não consigo” diante de desafios. Não é frescura — é memória celular. Adultos relatam sensação de impotência crônica, como se estivessem sempre sendo empurrados para a vida sem terem decidido nascer nela.

O bebê não empurra. Logo, não experimenta potência. O corpo não conclui o rito. Logo, não registra conquista. A biografia, sem passar pela travessia, começa amputada.

cesarea

O choque anestésico: quando a alma não chega junto com o corpo

Toda cesárea é atravessada por anestesia — e anestesia atravessa placenta.

O bebê chega dopado, desacordado, deslocado.
Não olha, não sente, não busca, não responde.

E justo ali, naquele minuto inaugural, estava programado o auge do imprinting:

  • olho no olho
  • peito
  • cheiro de mãe
  • calor de pele
  • pulsação compartilhada

Mas a consciência não está presente para receber o vínculo. É como assistir à própria chegada de longe, como se o protagonista entrasse em cena sem habitar o corpo.

Essa dissociação inicial abre portas para:

  • apego evitativo (“eu fico, mas não me envolvo”)
  • ambivalência afetiva (“eu amo, mas tenho medo de ser tocado”)
  • vínculos ansiosos (“não me abandona, mas também não chega perto demais”)
  • dificuldade de intimidade profunda
  • dificuldade de confiar no contato e na presença

Não por falta de amor — mas porque o corpo não estava acordado para recebê-lo.

cesarea

O primeiro toque define o mapa: hospital, luvas, luz, aço

No parto vaginal, o primeiro contato imunológico é com a mãe: flora vaginal, bactérias intestinais, microbioma que inaugura o sistema de defesas.

Na cesárea, o primeiro toque é com a sala cirúrgica: metal, tecido estéril, campo azul, ambiente técnico.

Não é detalhe. É fundação biológica e simbólica.

Quando o primeiro “mundo” apresentado ao bebê é frio, iluminado violentamente, cheio de ruído metálico e sem calor humano, o sistema nervoso registra:

  • o mundo é invasivo
  • o toque é clínico, não afetivo
  • o corpo é objeto, não sujeito

O desvio inicial do microbioma aumenta risco de alergias, imunidade frágil, dificuldades digestivas, desafios de amamentação e até quadros de depressão pós-parto. Não por culpa da mãe, mas porque sua presença foi substituída por outro ambiente.

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O cordão cortado antes da conclusão: separação sem transição

No parto fisiológico, o cordão só é cortado após a placenta pulsar, o que dá tempo ao bebê de aterrissar no corpo, respirar, sentir, reconhecer o campo seguro. Na cesárea, o corte é rápido. O bebê é retirado e separado antes de ter chegado. É como se a relação mãe-bebê fosse interrompida enquanto ainda era ponte, e não margem.

Isso estrutura subjetivamente:

  • a experiência de vínculos que começam com ruptura
  • medo de dependência
  • dificuldade de confiar em continuidade
  • sensação constante de separação mesmo na presença

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O trauma do início não é memória narrativa, é memória de pele

Quem nasceu por cesárea muitas vezes diz:

  • “Nada aconteceu comigo.”
  • “Não lembro, então não deve ter me afetado.”

Mas o trauma do nascimento não mora na mente — mora na fascia, no sistema nervoso, na musculatura involuntária.

É trauma sem imagem. Sem palavras. Sem lembrança — mas com efeito.

A clínica somática perinatal mostra que, quando esse material é acessado com corpo, toque, respiração e testemunho, algo se reorganiza:

  • o bebê interno finalmente atravessa
  • o adulto descobre potência e iniciativa
  • vínculos ganham profundidade
  • a interrupção dá lugar à continuidade
  • a ansiedade se transforma em presença

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Não é sobre culpa — é sobre autorização para sentir

Não se trata de culpar mães, médicos ou escolhas. Se trata de devolver humanidade ao nascimento.

Se 90% das cesáreas no privado não são urgência, não estamos salvando vidas — estamos normalizando o parto interrompido como cultura.

E uma sociedade que nasce sem completar tende a viver sem concluir:

  • começa projetos, não sustenta
  • ama, mas não se entrega
  • pensa, mas não encarna
  • deseja, mas não atravessa

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A cesárea salva vidas. Mas o conhecimento salva narrativas.

A medicina impede a morte. A psicologia perinatal impede o silêncio. Porque não basta nascer — é preciso chegar, habitar, enraizar.

A boa notícia é que o rito pode ser completado, mesmo décadas depois:

  • pelo corpo,
  • pela respiração,
  • pelo toque seguro,
  • pela integração somática das memórias.

Não é abstrato. Não é tarde. Não é exagero.

A vida inteira cabe no primeiro minuto vivido — e também pode renascer nele.

Há nascimentos que acontecem no corpo,mas não acontecem na presença. Se o seu ainda espera, se algo em você ainda chama por colo, ritmo, pele, respiração…

Venha pra Vivência Pré e Perinatal. Aqui, o começo encontra pouso. O corpo encontra tempo. A história encontra coroação.
cesarea

Referências Bibliográficas

Chen, Y.Y.; Tun, H.M.; Field, C.J.; Mandhane, P.J.; Moraes, T.J.; Simons, E.; Turvey, S.E.; Subbarao, P.; Scott, J.A.; Kozyrskyj, A.L. Impact of Cesarean Delivery and Breastfeeding on Secretory Immunoglobulin A in the Infant Gut Is Mediated by Gut Microbiota and Metabolites. Metabolites, 2023; 13(2): 148.  

“The Impact of Cesarean Section Delivery on Intestinal Microbiota: Mechanisms, Consequences, and Perspectives — A Systematic Review.” PubMed, 2023

“Difficulties in Adaptation of the Mother and Newborn via Cesarean Section versus Natural Birth — A Narrative Review.” MDPI, 2022

“Cesarean birth is associated with lower motor and language development scores during early childhood: a longitudinal analysis of two cohorts.” Scientific Reports, 2024

“Altered stress responses in adults born by Caesarean section.” PubMed, 2021

“Enduring Behavioral Effects Induced by Birth by Caesarean Section in the Mouse.” ScienceDirect / PNAS etc., 2021.

“Associação entre nascidos por cesárea e desenvolvimento de doenças alérgicas em crianças e adolescentes” 

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