A Grande Questão da Ressignificação: Como Traumas Moldam Nossa Vida

17/07/2025
Ressignificar Traumas: Quando mudar o significado não basta
Há uma palavra que se tornou quase um mantra no mundo terapêutico: ressignificar.
E não nego: há, sim, grande valor em atribuir novos significados a muitas experiências da vida. Um novo olhar pode aliviar dores, dissolver bloqueios, abrir portas antes trancadas.
Mas há um território onde apenas mudar o significado não é suficiente: o território dos traumas.
É nesse ponto que percebo muita confusão — mesmo entre profissionais bem-intencionados. Porque, quando falamos de traumas, não estamos lidando apenas com histórias ou interpretações. Estamos lidando com marcas impressas no corpo, gravadas profundamente no nosso Sistema Nervoso Autônomo (SNA).
E enquanto essas marcas não são reconhecidas, elaboradas e liberadas, qualquer nova narrativa mental corre o risco de ser apenas uma camada de tinta sobre paredes rachadas.
Ressignificar não apaga as marcas que o corpo carrega.
Esse é o ponto que quero trazer para você hoje.
Se você é terapeuta, psicólogo, profissional da saúde ou simplesmente alguém comprometido com a própria jornada de cura, este texto é um convite: a compreender por que ressignificar é essencial — mas não basta — quando falamos de trauma.
O que é ressignificar?
Em termos simples, ressignificar é trocar a lente através da qual olhamos para algo que nos marcou. É dar um novo sentido a uma experiência, muitas vezes dolorosa.
No cotidiano, isso é extremamente útil. Um exemplo trivial, mas didático: por muitos anos, associei suco de laranja e pão integral à saúde. Até compreender, através de estudos e da prática, como picos glicêmicos podiam me afetar física e mentalmente. A partir desse novo significado, transformei hábitos — e colhi efeitos concretos no meu bem-estar.
Mudar o significado muda comportamentos.
Mas quando falamos de trauma, a questão se torna muito mais complexa.
Trauma: Muito além da memória
Trauma não é o que aconteceu comigo.
É o que ficou registrado em mim depois do que aconteceu.
Não é apenas memória. Não é só história. Trauma é energia congelada no sistema nervoso. É o corpo que não pôde concluir uma resposta de luta, fuga ou congelamento. São músculos tensos, respiração curta, um estado crônico de alerta — como se houvesse sempre um nó apertado no peito ou um peso no estômago.
Mesmo quando, objetivamente, está tudo bem, o corpo segue dizendo: “algo ruim vai acontecer.”
Outro dia, assisti a um vídeo no instagram que ilustra bem essa questão. Um homem, em regressão, foi conduzido a voltar ao momento em que se sentiu rejeitado pela primeira vez. Poucos segundos depois, estava numa memória dentro de uma incubadora, sentindo medo, solidão, frio. O terapeuta, então, começou a pedir que ele repetisse frases positivas, tentando “ressignificar” a experiência.
Sabe qual é o problema?
O trauma não está apenas na história lembrada. O trauma está na descarga fisiológica que não aconteceu.
Enquanto o corpo não completa o que ficou preso, repetir frases bonitas é como tentar desligar um alarme puxando apenas o fio do alto-falante. O barulho cessa, mas o sistema de segurança segue disparado. É como pintar uma parede cheia de rachaduras: a cor muda, mas as fissuras permanecem.
E é isso que vejo tantas pessoas dizendo:
- “Poxa, eu já trabalhei tanto essa questão… por que ainda me sinto presa?”
- “Já compreendi as causas da minha rejeição… por que continuo me sentindo assim nos meus relacionamentos?”
- “Já perdoei, já entendi… mas a dor não passa.”
Porque o corpo continua preso lá, no evento original.
O Papel do Sistema Nervoso Autônomo
O Sistema Nervoso Autônomo (SNA) é a base silenciosa sobre a qual tudo repousa. Ele decide, antes mesmo da mente, se estamos seguros ou ameaçados.
Alguns fatores sobrecarregam o SNA de forma brutal:
- Precocidade biológica. Durante a gestação ou o nascimento, não temos recursos para lutar ou fugir. Estamos vulneráveis e dependentes do ambiente.
- Velocidade do trauma. Experiências traumáticas podem acontecer tão rápido que o sistema nervoso sequer consegue registrar ou processar completamente o que ocorreu.
- Ausência de apoio. Quando ninguém chega para nos ajudar, o SNA não encontra saída para descarregar a energia acumulada. Lembre que, até pouco tempo atrás, muitos profissionais da saúde acreditavam que bebês não sentiam dor ou emoção antes do nascimento. Imagine quantas experiências foram vividas completamente sós.
- Imaturidade do cérebro. Antes do córtex amadurecer, tudo é sentido no corpo, sem linguagem, sem narrativa — são memórias implícitas, silenciosas, mas poderosas.
Por isso dizemos que o trauma é fisiológico antes de ser psicológico.
Dados sobre trauma de parto — E a reflexão que isso nos pede
Estima-se que entre 5 e 20% das mulheres vivenciem sintomas clínicos de T.E.P.T. (Transtorno de Estresse Pós Traumático) após o parto, com taxas mais altas em casos de complicações ou cesárea de emergência (policycentermmh.org).
Entre 25 e 45% das mães relatam terem tido uma experiência de parto traumática.
E aqui eu te pergunto:
Se as mães se sentem traumatizadas, como será que se sente o bebê? Ainda em estágios iniciais de desenvolvimento, completamente vulnerável, num corpo que registra cada sensação sem ainda conseguir dar significado algum?
Essa é a trama invisível que muitas vezes molda toda uma vida.
Por que Ressignificar não basta
Mudar a narrativa mental sem liberar o corpo é como jogar perfume em um quarto mofado. Pode até cheirar bem por um tempo… mas o mofo continua lá, corroendo tudo por dentro.
Se as respostas interrompidas do sistema nervoso não encontram um caminho para se completar — seja empurrar, se encolher, tremer, gritar, chorar —, a pessoa segue refém da mesma ativação.
E aqui cabe um alerta importante: linhas terapêuticas catárticas que tentam forçar essas respostas de forma agressiva podem também traumatizar novamente, se não estiverem ancoradas no entendimento da neurofisiologia do trauma.
- Não basta entender intelectualmente o trauma.
- Não basta dizer ao eu ferido que “está tudo bem.”
- Não basta repetir frases positivas.
O corpo precisa completar aquilo que ficou interrompido.
Só então a ressignificação se torna possível e o trauma elaborado — não como esforço mental, mas como consequência natural de um corpo que finalmente se sente seguro.
A importância do processamento somático
É aqui que entra a terapia somática — e, em especial, a Psicologia Pré e Perinatal. Não se trata apenas de contar histórias, mas de permitir ao corpo concluir o que não pôde acontecer.
Um exemplo clássico que encontro na prática clínica:
O nascimento.
Imagine um bebê que nasceu de cesárea. Talvez a cesárea tenha sido fundamental para salvar vidas. Mas há algo importante: aquele bebê não atravessou o canal vaginal. Não sentiu as pressões, as rotações, o trabalho de empurrar-se para fora.
Na biologia, isso não é apenas um detalhe. São microprogramações que ensinam ao corpo que esforço gera resultado. Que há força dentro de si.
Estudos conduzidos na Califórnia pelo PhD William Emerson com 321 crianças entre 4 e 11 anos mostraram que crianças nascidas de cesárea diziam quatro vezes mais “eu não consigo” do que crianças nascidas por parto vaginal.
Não basta dizer à criança: “você consegue.”
O corpo gravou a experiência de não conseguir nascer sozinho.
E é por isso que, no trabalho somático, precisamos resgatar e completar as respostas interrompidas que não aconteceram.
Eu mesmo já vivi essa experiência — tanto como terapeuta quanto como cliente. É quase indescritível a sensação de apropriação da própria força. Uma diferença brutal em relação a quando, antes, eu apenas repetia frases positivas enquanto sentia meu corpo em contração ou colapso.
Uma história real: Além da Ressignificação
Certa vez, atendi uma mulher que buscava ajuda para lidar com a sensação de desvalorização e dificuldades com prosperidade. Ela era professora conceituada de constelações familiares, com amplo histórico de trabalhos terapêuticos — hipnose, constelação e psicoterapia.
Propus a ela que, dessa vez, ao invés de procurar respostas apenas na mente, ouvisse a memória implícita do corpo.
Poucos minutos depois, ela estava numa cena da infância, onde havia sofrido abuso. Chorou, tremeu… e, subitamente, abriu os olhos furiosa.
Disse entre palavrões:
“Eu já ressignifiquei essa merda tantas vezes… e isso continua aqui!”
Ela estava exausta, frustrada consigo mesma, sentindo-se uma fraude, quase envergonhada por ainda carregar aquela dor.
Eu a convidei a uma nova perspectiva: se ainda estava ali, talvez aquela parte dela estivesse pedindo algo mais profundo. Expliquei sobre o Sistema Nervoso Autônomo, sobre como as ativações não descarregadas mantêm o corpo preso no trauma.
Ela, naquele momento, não quis ouvir. A raiva dela não era comigo, mas com a esperança repetidamente frustrada de que apenas “ressignificar” bastaria.
E é isso que tantas pessoas vivem: não apenas a dor do trauma original, mas a culpa por “não conseguir melhorar” — mesmo depois de tanto trabalho terapêutico.
A influência dos traumas precoces
Traumas precoces moldam tudo:
- Como vemos o mundo.
- Como sentimos nosso lugar nele.
- Como nos relacionamos.
- Como experimentamos segurança ou ameaça.
Muitos adultos vivem sob crenças profundas como:
- “A vida é uma luta.”
- “Ninguém estará lá por mim.”
- “O amor machuca.”
- “Eu tenho que me virar sozinho.”
Essas crenças não surgem do nada. Muitas vezes, são apenas o nome que damos a sensações viscerais gravadas desde a gestação ou o nascimento.
Por isso, não se trata apenas de mudar crenças. É preciso libertar as sensações que sustentam essas crenças.
Conclusão — Ressignificar com o corpo, não apenas com a mente
Ressignificar é importante. Mas não é tudo.
Quando falamos de trauma — sobretudo dos traumas que estudamos na Psicologia Pré e Perinatal — precisamos honrar o corpo. Precisamos trabalhar onde o trauma ficou preso.
Só então a nova história contada pela mente deixa de ser apenas palavras — e floresce no corpo como verdade sentida.
Se você é terapeuta, convido você a olhar para camadas que talvez ainda não tenha considerado. E se está na sua própria jornada de cura, saiba: se ainda sente algo preso, isso não significa fracasso. Significa apenas que há mais camadas a serem libertadas.
E a boa notícia é: o corpo pode aprender um novo caminho.
Se este artigo ressoou com você, compartilhe com quem precisa ouvir. E, se sentir o chamado, venha experimentar esse trabalho profundo — ou aprender a levá-lo a outras pessoas através da nossa Formação em Cura das Feridas Pré e Perinatais.
Porque o corpo não esquece.
Mas ele pode, sim, aprender a se libertar.
“Se você já se sentiu preso em histórias antigas, talvez seja hora de deixar o corpo contar o resto da história.”
Referências Bibliográficas
Trauma e neurofisiologia
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Fiquei encantando com a explicação do ressignificar, o quanto ele pode prejudicar, se não trabalhar todos os pormenores do trauma gravado no corpo.