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O Poderoso Inconsciente

Por Manoel Augusto Bissaco.

Você já pensou sobre a influência do seu inconsciente na sua rotina diária? A princípio a pergunta pode parecer estranha, mas a verdade é que suas escolhas, feitas conscientemente, são influenciadas por padrões automáticos, já estabelecidos no seu inconsciente.

Hoje sabemos através da neurociência 95% da mudança comportamental inicia na mente inconsciente e apenas 5% da mudança comportamental pertencem à mente consciente. Isso se a mente consciente não estiver distraída, senão são apenas 2%.

Nossa mente inconsciente reage à respostas ou modelos do comportamento armazenado e trabalha muito sem o conhecimento de nossa mente consciente. A mente inconsciente toma decisões e realiza a ação um terço de um segundo, antes que nossa mente consciente esteja ciente da ação.

Nossa mente inconsciente é estruturada, não linear e programada para promover nossa evolução. Ela contém nossa força de vida, espiritualidade e tudo o que é necessário, de forma que tenhamos a capacidade de nos tornarmos o que éramos destinados a nos tornar.

Ela possui seu próprio vocabulário e pode ser trabalhado diretamente, sem a entrada da mente consciente. De fato, ainda possui a habilidade de ligar e desligar os genes, de manipular nossa saúde e herança física e psicológica. O que pensamos é verdadeiramente o que podemos nos tornar.

Em termos mais práticos para se entender a grande influencia que a mente inconsciente tem sobre nós, pare e pense por um momento:

Se algum dia você conheceu alguém que esteve em um relacionamento, onde a pessoa sabia que era destrutivo, ela sabia que merecia alguém melhor, ela sabia que o parceiro não era o que ela buscava, todos ao redor dessa pessoa também sabiam e diziam para ela. De fato essa pessoa realmente sabia que o relacionamento não era saudável, porém essa pessoa não conseguia sair deste relacionamento.

Outro exemplo mais cotidiano:

Quantas vezes você ou um conhecido começou uma dieta, ou um programa de exercícios e após um período, tudo volta a ser como antes, ou a pessoa pula de dieta para dieta, sem conseguir resultados satisfatórios e permanentes?

No exemplo do de relacionamento, de fato a pessoa sabia que era ruim e sabia o que era melhor pra ela, porém ela sabia conscientemente, inconscientemente é outra história. Assim como no exemplo da dieta, no momento que a pessoa deixa de estar consciente, adivinha quem volta no comando reproduzindo aqueles velhos programas? Se sua resposta foi o inconsciente, acertou!

Se não se convenceu ainda, você também pode se lembrar de um dia em que estava dirigindo, e se pegou indo para um caminho que não era o seu destino, pois enquanto sua mente consciente estava ocupada com alguns pensamentos que possivelmente você estivesse tendo, sua mente inconsciente tomou partido e dirigiu para você.

Mas isso esta longe de ser uma coisa ruim, pois você já imaginou como seria ter de levantar todos os dias da cama e ter de aprender de novo a dirigir, escovar os dentes, andar, e a lista segue…

Agora fica mais fácil entender por que 95% de toda mudança comportamental reside na mente inconsciente, pois enquanto a mente consciente processa 4 mil bits de informação por segundo a mente inconsciente processa 4 milhões de bits de informação por segundo. Programas inconscientes são um milhão de vezes mais poderosos que os programas da mente consciente.

Para Bruce Lipton, um dos primeiros pesquisadores na área dos estudos da neurociência e consciência, verificou que a mente consciente, embora possa pensar livremente e criar ideias, é restrita por sua natureza linear. A mente inconsciente esta muito mais no controle e é um supercomputador que contem um grande banco de dados de todos os comportamentos humanos, especialmente os adquiridos antes dos sete anos de idade.

A grande questão aqui é que o inconsciente armazena e grava tudo como padrões, e muitos são saudáveis e nos ajudam no dia a dia. Mas e aqueles padrões disfuncionais que foram aprendidos e gravados no inconsciente, que me fazem não conseguir emagrecer ou ter um relacionamento satisfatório? E o pior são aqueles programas gravados antes dos sete anos de idade, que tem influência enorme em minhas decisões, e eu nem estou consciente deles.

Talvez você esteja se perguntando por que até os sete anos de idade, não é mesmo?

Bom, vamos lá:

Se você colocar um aparelho de eletroencefalograma, e medir as ondas cerebrais de uma criança de zero a dois anos de idade, as ondas serão equivalentes a ondas Deltha (2 a 4 ciclos por segundo).

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Crianças de quatro a sete anos de idade irão apresentar ondas Theta (4 a 7 ciclos por segundo).

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Crianças de sete a doze anos de idade irão apresentar ondas Alpha ( 7 a 14 ciclos por segundo).

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Mas oque são essas ondas cerebrais?

Ondas cerebrais são formas de ondas eletromagnéticas produzidas pela atividade elétrica das células cerebrais. Elas podem ser medidas com aparelhos eletrônicos como o Eletroencéfalogramo ou EEG. As freqüências dessas ondas elétricas são medidas em ciclos por segundo ou HZ(Hertz). As ondas cerebrais mudam de freqüência baseadas na atividade elétrica dos neurônios e estão relacionadas com mudanças de estados de consciência (concentração, relaxamento, meditação, etc.)

Basicamente os estados Deltha, Theta e Alpha, são estados hipnóticos.

Até aos sete anos nós simplesmente passamos pela vida fazendo o download de tudo que vemos, ouvimos e sentimos, dando nossa própria interpretação para os fatos e acontecimentos. Especialmente dos quatro aos sete anos, quando as ondas predominantes são as ondas Theta, é um estado muito imaginativo. E se você já interagiu com crianças dessa idade saberá que ela vive num mundo de sonhos e fantasias.

Agora vamos pegar o exemplo de uma criança que vai ao supermercado com pai e pede para comprar algo. O pai, por exemplo, que teve um dia cheio no trabalho e uma briga no transito, direciona a raiva para criança dizendo, “não vou comprar porque você não merece!”. A criança não tem a habilidade consciente ainda para discernir, “ah meu pai apenas teve um dia cheio e não sabe o que esta falando, claro que eu tenho muito valor, claro que sou amado!”.

Muito pelo contrário, a criança começa a interiorizar a ideia de que não tem valor, e não merece, e isso vai se juntando a várias outras experiências que a criança tem.  E cria crenças equivocadas sobre si mesmo que mais adiante na vida, a pessoa se envolverá em relacionamentos onde os parceiros não a valorizarão, por exemplo. Mas isso é apenas um exemplo e não pode ser tomado como regra absoluta.

E assim nossa mente inconsciente começa a automatizar em padrões essas crenças incorretas sobre si mesmo como, a tristeza, os medos, e assim por diante. E talvez você não tenha consciência que esses padrões existem dentro de você.

Se de fato queremos fazer mudanças em nossas vidas temos de entender como o inconsciente funciona e se comunica, porém aqui começa uma outra jornada. Vamos voltar um pouco na história…

Freud não inventou a ideia de mente consciente versus mente inconsciente. A ideia de uma mente inconsciente foi originada na antiguidade. Ela foi escrita pela primeira vez entre 2500 e 600 A.C., nos textos Hindu conhecidos como Vedas

Filósofos ocidentais como Spinoza,  Leibniz,  Shopenhauer,  Kierkegaard e Nietzsche, desenvolveram uma visão ocidental de mente que prenunciou as de Freud. Articular a ideia de algo não consciente ou ativamente negado à consciência, vem sendo um processo do pensamento humano por milênios.

Porém Freud foi responsável por popularizar a mente inconsciente e hoje isto é reconhecido como um de suas principais contribuições para com a psicologia e psicanálise.

Logo, teorias e filosofias em relação ao inconsciente são várias.

Freud acreditava que o inconsciente ou subconsciente, era um depósito de ideias socialmente inaceitáveis, vontades, desejos, memórias traumáticas, emoções dolorosas e impulsos sexuais reprimidos. Um caldeirão de material reprimido e traumático, um inimigo formidável que eventualmente irá ocasionar nossa destruição.

Carl Gustav Jung adicionando os aspectos do inconsciente coletivo e os arquétipos e que o inconsciente continha toda as memórias da humanidade de passado presente e futuro.

Jaques Lacan que introduziu o conceito de que a mente inconsciente é exatamente tão sofisticada quanto a mente consciente.  Isto é estruturado e possui sua própria linguagem. Utilizava de simbolismo para se comunicar.

Nas abordagens psicanalíticas o inconsciente era trazido para o consciente através de técnicas de meditação, interpretação de atos falhos, sonhos e associação livre. Que depende da interpretação do terapeuta que devolve ao paciente.

Para Milton H. Erickson a mente consciente decide o que é possível fazer e o que não é possível fazer, embora uma ideia é quase sempre iniciada pela mente inconsciente. A mente consciente possui habilidade de analisar coisas, raciocinar e julgar como certo ou errado. Visto que não podemos prestar atenção a tudo de uma só vez, o mundo é reduzido a um nível controlável por nossa mente consciente.

E já a mente inconsciente é capaz de processar e acessar muito mais quantidades de informações que a mente consciente. Ela é um reservatório de experiências multidimensionais adquiridas durante toda a vida, incluindo a experiência histórica, aprendizados pessoais e sociais, impulsos, motivações, necessidades e funções automáticas inumeráveis. Ela não é rígida e limitada ao analítico, ela pode responder às inferências entre as linhas, é capaz de interpretação simbólica e tende a ter uma visão global. Ela é o maior armazém de tudo o que já aconteceu do momento da sua concepção até o presente. Ela processa informações contraditórias em múltiplos níveis.

Como todos puderam perceber, o fator comum entre os teóricos é que a mente inconsciente realmente tem muito poder, como afirma a neurociência, porém a visão de cada um interferiu na maneira de como transformar o inconsciente, com suas próprias abordagens.

Um dado curioso é que se Freud tem 60 (sessenta) casos clínicos de sucesso catalogados, Milton Erickson tem mais de 600 (seiscentos).

Freud abandou a hipnose, e isso muitos sabem, mas o que poucos perceberam é que ele, Freud, disse ter abandonado a hipnose por não possuir habilidades o suficiente.

Já o trabalho de Erickson foi baseado na hipnose que ele mesmo redesenhou e/ou reinventou, conhecida hoje como hipnose ericksoniana ou naturalista.

Um outro fato curioso foi uma pesquisa feita psicólogo americano Alfred A. Barrios, Ph.D.

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Psicanálise: 38% de recuperação após 600 sessões (cerca de 11 anos e meio);
Terapia Comportamental: 72% de recuperação após 22 sessões (cerca de 6 meses);
Hipnoterapia: 93% de recuperação após 6 sessões (cerca de 1 mês e meio).

“ah quase ia me esquecendo” – vocês se lembram daquelas ondas cerebrais, citadas acima?

As crianças ate 7 anos vivem  em estados alterados de consciência ou  hipnóticos o tempo todo, talvez essa seja um grande determinante do porque através das pesquisas a hipnose tem se mostrado de grande ajuda.

E cada vez mais as linhas e abordagens terapêuticas têm surgido em função de trazer alívios para as pessoas e melhorar a qualidade de vida, algumas com mais resultados do que outras. Na minha opinião perceber o inconsciente como um caldeirão de material reprimido, e que cedo ou tarde virá para te destruir, não é um bom lugar para se visitar, não é mesmo? Erickson acreditava que o inconsciente era projetado para o desenvolvimento do ser, e também continha muitos recursos e deste modo fica muito mais fácil olhar para dentro de si e corrigir aqueles aprendizados incorretos e incompletos.

Eu particularmente sou um grande fã de Erickson em suas modalidades e abordagens terapêuticas, tanto pelas estatísticas quanto pelo próprio processo que pude passar em minha vida, onde abordagens convencionais não deram resultado nenhum.

O Psicólogo austro-americano Paul  Watzlawick contou a historia de um homem que muito tarde da noite, estava sob a luz de uma luminária num poste de rua, e estava olhando fixamente para o chão, como se procurasse algo. O homem deslocava-se com dificuldade, cambaleava, tinha um caminhar tortuoso, mas não tirava os olhos do chão, e nem saia da claridade proporcionada pela luz.

Um policial que ali passou, reparando nas dificuldades do homem, aproximou-se dele e perguntou-lhe se precisava de ajuda. O homem respondeu afirmativamente e informou o policial de que tinha perdido as chaves de casa, mas como estava embriagado, não queria acordar a mulher que dormia em casa.

Solícito, o policial ajudou-o a procurar a chave. Vasculharam o local, e passado algum tempo, perguntou: “Foi aqui mesmo que o senhor perdeu as chaves?” “Não”, retrucou prontamente o homem, que para o espanto do policial, acrescentou: “Não, não foi aqui que perdi a chave, mas só aqui é que há luz para poder procurar!”

Com relação a mudanças, sei que muitos estão em busca delas, mas talvez seja  como o homem e o poste de luz. Podem estar buscando no lugar errado e de uma maneira equivocada.

Seja meu palpite certo ou não, de uma coisa tenho certeza…

Eu tenho uma mente inconsciente, você tem uma mente inconsciente, você  leu esse texto até o final, e muito provavelmente você sabe mais sobre o que é o  inconsciente e pode agora tirar suas próprias conclusões.

1 comentário

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  • Suellen Gomes Costa

    Sensacional essa matéria !! Obrigado…

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